Diretório 2017 – 2019

ORG

Direção

“Eu nunca falei de formação do analista, falei de formação do inconsciente.”
J. Lacan

A Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória – ELPV orienta-se a partir do ensino e transmissão dos fundamentos da obra de Sigmund Freud e de Jacques Lacan, e tem como princípio a formação do psicanalista, cujos pilares são a análise pessoal, a supervisão, o estudo em cartéis e a experiência do passe.

Alem de zelar pela formação permanente do psicanalista – um psicanalista nasce da experiência de uma análise – a Escola tem como marca singular a pesquisa e o trabalho de conexão do discurso analítico com outros campos de saber. A ELPV tem uma inserção significativa na comunidade capixaba, desenvolvendo trabalhos e eventos de conexão com a educação, com o campo jurídico, com a arte e outros campos de pesquisa.

 A Escola segue a orientação ética de Freud e de Lacan de fazer ressoar o discurso psicanalítico na cultura de seu tempo e na sociedade em que está inserida, de maneira cautelosa, sem o intuito de responder às demandas oriundas do social e de outros campos, e, advertida para não adormecer frente ao real da castração que está em jogo na formação do psicanalista. Um real que desafia permanentemente o psicanalista a enfrentar a impossibilidade lógica de existir um saber totalizante que responda ao mal-estar na cultura.  

O lugar Direção trabalha junto ao Diretório da Escola, que é composto por outros lugares de garantia: Tesouraria, Secretaria de Ensino, Secretaria de Cartéis, Secretaria do Passe, Sessão Clínica, Secretaria de Publicação e Biblioteca.       

 À Direção cabe a escuta atenta e a orientação para que a Escola caminhe dentro da ética de uma formação; trabalho que não se realiza sem o Diretório. Cabe a este lugar escutar e recolher os impasses e fracassos que ocorrem no âmbito da Escola de modo a tomá-los como ensinamentos para a formação do psicanalista e para a transmissão da psicanálise.     

Sobretudo, a Direção da Escola funciona como agente provocador de trabalho junto ao diretório, aos membros e participantes. Uma tarefa que se pauta na transferência de trabalho com os textos de Freud e de Lacan articulada ao saber inconsciente que um psicanalista constrói ao longo de sua análise pessoal.     

 

Membro

É aquele que deseja ingressar na Escola para iniciar sua formação como psicanalista.

Aos membros cabe a responsabilidade de zelar pelo ensino e transmissão da psicanálise pautados pelos conceitos fundamentais de Freud e de Lacan. Cabe a um membro:

-Participar das atividades propostas pela Escola, tais como cartéis, grupos de estudos, seminários, sessões clínicas, apresentação de trabalhos, participação de eventos e publicações.   

- Zelar pelo cumprimento do Regimento Interno e Estatuto da Escola.

-Votar e ser votado em Assembleia para ocupar lugar no Diretório e demais funções conforme o Regimento Interno da Escola.

-Representar a escola quando designado.

-Pagar a mensalidade referente ao lugar de membro.

-Zelar pelos destinos da Escola.

Participante

É aquele que interessa em participar das atividades que fazem parte do programa de ensino e transmissão da psicanálise que a Escola oferece, tais como Seminários, apresentação de cartéis, eventos.

-É vetado a esta categoria sua participação em Sessões Clínicas.

-Pagar a mensalidade referente as atividades que a Escola oferece.

-Sua inscrição na categoria de participante poderá ser automaticamente desfeita devido ao não pagamento da mensalidade por três meses consecutivos.

 

 

Tesouraria

“As questões de dinheiro são tratadas pelas pessoas civilizadas da mesma maneira que as questões sexuais – com a mesma incoerência, pudor e hipocrisia”. (FREUD)
“Não há nada mais caro na vida que a doença e a estupidez”. (FREUD)

 

O lugar Tesouraria é “responsável pela administração dos recursos financeiros da escola, bem como pela função analítica que o significante dinheiro representa entre seus membros, com a função de corte que ele exerce e que remete cada um a sua questão sintomática” (Regimento interno da ELPV).

O dinheiro entra na cadeia significante substituindo o objeto que representa a falta constituinte do sujeito, como mais um dos objetos destacáveis do corpo: seio, fezes, pênis, dinheiro. Objetos altamente valorizados pelo sujeito. Assim, o dinheiro pode permitir “amoedar”, contabilizar, de um lado o capital libidinal, que é o investimento subjetivo em direção ao desejo, e de outro, a quantidade de Gozo, de satisfação pulsional que é da ordem do Real. O pagamento encena o lugar do sujeito frente ao Outro, na dialética da demanda e do desejo, na fase anal.

Numa análise, o dinheiro é tomado como um elemento significante da condição desejante do analisando. Ele será a medida particular de valor e da disposição do sujeito em se livrar de seu sintoma, considerando que isso requer perda de gozo, perda narcísica.

A escola coloca em questão o valor dado ao postulante a analista a sua formação.

Devemos, portanto, entender a Tesouraria como um “lugar suporte” para o funcionamento da Escola, permitindo o entrelaçamento do Simbólico (o instituído) com o Real (furo/ falta), aonde as necessidades práticas vão ao encontro das questões sintomáticas. Cabe assim, à Tesouraria, cuidar do patrimônio e dos recursos financeiros da Instituição, não como um fim em si mesmo, mas tendo como alvo a Escola como lugar de formação de analistas.

 
 

 

Sessão Clínica

Uma Escola de Psicanalise visa a formação do analista. Lacan, no Ato de Fundação de sua Escola Francesa de Psicanalise, estipula uma organização circular cujo funcionamento, ele afirma, "se firmará na experiência". Em nossa Escola, vários lugares se subdividem para tentar dar conta do que se trata na formação do analista. Nesses espaços, os analistas são convocados a sair da solidão que vivenciam nos consultórios e compartilhar questões próprias às suas experiências.

Qual seria a especificidade do espaço sessão clínica, tendo em vista que a transmissão não é privilégio desse dispositivo?

Freud inventa a psicanálise, a partir da clínica de suas histéricas. É da escuta das queixas de suas analisandas, dos significantes particulares de cada uma, que ele pôde construir um saber, o saber psicanalítico. A prática clínica, então, funda um campo teórico. Portanto, para uma escola de psicanálise a clínica é fundamental, no sentido da sustentação mesma da psicanálise e de seu avanço no mundo.

Um psicanalista pode ele próprio elaborar teoricamente os casos que escuta e avançar nos impasses da sua clinica, em sua própria supervisão. A solicitação de uma sessão clínica é de outra ordem. Quando um analista solicita uma sessão clinica, o faz pelo desejo de trabalhar um recorte clínico, avançar em algum ponto, teoricamente, não somente à partir de suas elaborações, mas também, na interlocução com os pares, pois como nos ensina Lacan, "o psicanalista se autoriza de si mesmo, e de alguns outros.".

A apresentação de casos clínicos numa escola de psicanalise possibilita abordarmos o real em jogo na formação do analista, já que ”a clínica é o real enquanto impossível de suportar” (Lacan). Diferente do saber acadêmico, o saber psicanalítico que se transmite através do caso clinico, não nos ensina um saber já dado, mas a possibilidade de algo da ordem de uma invenção pois cada caso é único. O real, como impossível de simbolizar, introduz impasses na elaboração. Ao trazer o real da clínica, num recorte de um caso, o psicanalista testemunha, em ato, sua função.

 

 

Secretaria de Cartéis

Lacan, ao fundar a Escola Francesa de Psicanálise, inicia sua fala dizendo que sua intenção é fazer com que a Escola aconteça a partir do trabalho: “Para a execução do trabalho, adotaremos o princípio de uma elaboração apoiada num pequeno grupo”¹. Ele nomeou este grupo de cartel, a célula mínima de uma Escola de Psicanálise. Ele deve ter no mínimo três pessoas e no máximo cinco, sendo quatro a medida justa. Além disso, deve haver o MAIS UM, um membro responsável por provocar a discussão tanto em relação aos textos como às questões relativas ao tema escolhido. O MAIS UM deve também verificar o trabalho de cada membro do cartel.

Dentre outras coisas, Lacan formula que o cartel deve ter uma estrutura borromeana. Mas o que isso quer dizer? O nó borromeano é uma invenção de Lacan. Em sua estrutura estão articulados três registros: real, simbólico e imaginário. Além disso, há um quarto elo, o sintoma, que amarraria os três registros. Essa amarração dá-se de tal forma que se cortarmos um elo, os outros três se soltam. É o sintoma que nodula o nó/cartel, dando-lhe sustentação.  Os membros do cartel são como os elos do nó e, por isso, se algum deles sai, o nó se desfaz. Em outras palavras, o cartel se desfaz. O MAIS UM é o membro do cartel escolhido para ocupar uma função importante, mas deve sustentá-la sem encarná-la. A sua função deve ser a de sustentar o desejo, fazendo-o circular no cartel. O desejo é o agente provocador do trabalho, resultando numa produção. Essa produção precisa ser regida por uma articulação dos significantes da psicanálise com uma questão que diga a respeito a cada um. O sujeito do desejo deve comparecer como efeito desta produção. Mas isso só será verificado num só depois.  Se isso se deu, podemos dizer que houve um cartel para além do grupo inicial constituído.

 

Vera Lúcia Saleme Colnago 

Secretaria de Ensino

... Há um real em jogo na formação do psicanalista.”  Lacan, in Escritos

“... um ensino não significa que com ele vocês tenham aprendido alguma coisa, que dele resulte um saber... A verdade pode enganar, o saber passa em ato.” Lacan, in Outros Escritos

 

O discurso psicanalítico, inaugurado por Freud, estabeleceu uma relação inédita, e muito particular, com o campo do saber. Essa particularidade está referida à própria descoberta freudiana, que vem subverter o cogito cartesiano: sou, ali onde não penso.

O saber que interessa à formação do psicanalista, e à transmissão daPsicanálise, se elabora a partir de um saber que não se sabe, cuja origem é o inconsciente.

Na tentativa de apontar para os riscos de uma padronização da formação, Lacan afirmou certa vez que ele jamais falara de “formação do psicanalista” e sim de “formações do inconsciente”. Com isso o que desejava enfatizar era a importância daquilo que se pode colher da experiência singular de cada analista, para que a psicanálise avance.

O ensino em Psicanálise se baliza por um discurso que se opõe ao discurso e ao saber do mestre, pois não se visa a um universo de conhecimento a ser ensinado. Trata-se de uma transmissão onde, aquele que fala numa escola se posiciona como alguém referenciado à sua experiência única com a psicanálise, com aquilo que Lacan definiu como a categoria do Real. Esta aponta para uma impossibilidade de se dizer tudo sobre a verdade.

O saber psicanalítico não é ensinável, nos moldes do saber da ciência. Por isso Lacan insistiu em dizer que a psicanálise é intransmissível, na medida em que ela se caracteriza por ser um saber não-todo.

Numa escola de Psicanálise, é fundamental que cada psicanalista em formação possa dizer de sua experiência com o Real, ou seja, do modo como ele próprio pôde se haver com esse Real como impossível.

Uma Secretaria de Ensino pode delimitar, por um certo período de tempo, um determinado tema para estudo. Nesse trabalho cabe à ela sustentar, sobretudo, a função de insistir para que justamente o não-todo possa transmitir-se.

 

 

Secretaria de Publicação

 

O que é “publicar”? Para que serve a passagem ao público de um escrito? No que interessa à psicanálise que se publique o que de uma experiência – a dos analistas ou daqueles que se candidatam ao texto freudiano/lacaniano – pôde se recortar?

Estas são ao menos algumas das questões que se pode formular em torno do que seria a função deste lugar em uma Escola de Psicanálise: a Publicação. Sabemos que Freud, ao longo de seu percurso, jamais abriu mão de registrar, dia a dia, escrevendo, os efeitos de sua prática, suas hipóteses, conclusões e retificações, deixando entrever, inclusive, o suporte de sua obra, seus rascunhos, suas hesitações e incertezas. E foi graça a esse registro, escrito, que hoje temos acesso à sua magnífica invenção: a psicanálise!

Lacan, diversamente de Freud, escolhe dizer, articular suas elaborações, num primeiro momento, oralmente, em seus Seminários, em um movimento que se poderia talvez chamar de um verdadeiro work in progress. Entretanto, não deixa de nos advertir que seus Escritos, esta coletânea de textos escritos e publicados, seriam o paradigma de seu ensino na medida em que ali estariam impressos elementos de doutrina. Tampouco abre mão de que os restos de sua fala fossem grafados e publicados.

A psicanálise, certo, já foi inventada. Mas para que não se petrifique, ela precisa, sim, que ser sempre reinventada. Daí a importância de um gesto singular de escrita que, por si, exige um leitor, exige que algo passe. E tanto um quanto o outro, escrita e leitura, são indispensáveis à reinvenção do traço que fundou um campo novo. A psicanálise depende da fecundidade da inscrição de uma letra – lettre, no francês, que quer dizer carta e letra – e sempre mais uma que, tornada carta, buscará sempre seu destino. E nada pode ser lido se não tornado público, melhor, “poubellicado”, para lembrar o neologismo de Lacan em “Lituraterra” em seus Outros Escritos.

Publicar, pois, pode não ser “preciso”, porque comporta sempre uma certa errância, mas é sim, necessário!